HifiClube

Ayre AX5: diamante puro

São precisos dois para o tango.

Sendo o Ayre AX5 um amplificador integrado, seria lícito o leitor pensar que me estou a referir aos habituais andares de prévio e de potência. De facto, o AX5 não “integra” um pré-amplificador convencional, com um potenciómetro para atenuar o volume, mas um circuito patenteado de ganho variável (VGT), cuja face visível (e audível!) são dois enormes “relógios” motorizados, com relés rotativos e dezenas de resistências, cujos valores precisos alteram a transcondutância (ou transferência) dos 4 transístores (JFETs) do andar de ganho do amplificador.

Aparentemente, isto não é mais que o velho potenciómetro de resistências dos prévios passivos de antanho. Nada de mais errado. As resistências aqui não têm a função de atenuar o sinal (e com ele a dinâmica relativa), no andar de prévio, mas de variar o ganho do circuito simples de entrada do andar de potência. Deste modo, é possível manter a mesma relação sinal/ruído em todos os 46 passos de 1,5 dB da variação de 67,5 dB entre volume máximo e mínimo.

De forma simplificada, tentei prepará-lo para o “choque” de um amplificador integrado highend, com um preço de 8 500 euros, utilizar um botão de volume que soa como uma caixa de pregos, quando se roda! Calma, é tudo por uma boa causa...

Podemos estabelecer uma analogia com a alta relojoaria. Os connaisseurs não têm problemas em investir dez, vinte, trinta mil e mais euros num relógio mecânico, de marcas desconhecidas para o comum mortal: A.Lange&Söhne, Antoine Preziuso (na foto) Breguet, Chaumet, Chopard, JaegarLeCoultre, ao qual se tem de dar corda, numa era em que a Samsung lançou recentemente um smartphone de...pulso!

Pergunta o leitor: será preciso investir 10 mil euros para ouvir música? Pergunta o crítico: será preciso investir 10 mil euros para saber as horas?...

Na verdade, quando estou na sala de espera do dentista, há revistas sobre tudo, incluindo relógios e canetas de luxo (Ken Kessler que o diga...), e nunca vi nenhuma sobre hifi. Para a próxima faça como eu: leve o iPad para ler o Hificlube, que o vai ajudar a compreender melhor o mundo do highend, quanto mais não seja por uma questão de cultura pessoal. Ou apenas para passar o tempo – o iPad também tem relógio...

Era a este binómio homem/máquina que eu me queria referir, quando falei de tango. Comprar highend não é só uma questão de dinheiro, é também – e sobretudo – uma questão de cultura.

Não faltam alternativas a quem tem muito dinheiro: mansões, carros, relógios, roupa, mulheres, jogo, viagens, a lista é infindável. Até as revistas de bicicletas vendem mais que as de hifi. E já não falo na moda e no culturismo, muito menos do voyeurismo social.

Apesar disso, a oferta de equipamento de áudio highend em Portugal continua a ser extensa (e intensa!), como prova a longevidade da minha actividade de crítico, que pressupõe a condição sine qua non da existência de importadores e distribuidores – logo, de compradores - das grandes marcas mundiais de áudio.

Um audiófilo é como um príncipe “renascentista”, que, além de ter dinheiro (o vil metal é há séculos o motor da história), tem de saber um pouco de tudo: da arte da guerra (o mercado é um verdadeiro campo de batalha), de história da arte, do design e do áudio; de música, de alguns rudimentos de electrónica e - acima de tudo - ter uma paixão (obsessão?) pela qualidade do som.

E, claro, o gosto por possuir coisas boas de reconhecido valor pelos outros (quem não gosta de se exibir?), bem patente nas alternativas citadas. Com uma diferença: enquanto estas são objectos de desejo universal, o highend pertence a um círculo restrito e fechado – é um fenómeno de grupo, o que pressupõe uma relativa privacidade: não se anda por aí na estrada a exibir o amplificador...

São precisos dois para dançar o tango: o crítico, que desempenha o papel de potencial comprador, e o leitor, que quer saber as razões subjectivas que justificam comprá-lo, muito para além do preço e das características técnicas, que constam de qualquer catálogo.

O “clic” (passe a expressão) pode estar, por exemplo, na filosofia do construtor.

De Charles Hansen, da Ayre, neste caso: um amador que, tal como eu, ama aquilo que faz. Hansen não “vê” o som pela pespectiva do engenheiro, ouve pela perspectiva do músico amador que também é. Todos os circuitos, todos os componentes têm de “soar” bem e ter passado a prova do tempo.

O potenciómetro de resistências é uma obra prima da arte de relojoaria: as resistências são seleccionadas uma a uma; os contactos são de prata pura. Pode ser ruidoso na operação mas é totalmente silencioso na função. Segundo Hansen, é o mais caro alguma vez construído e a única forma eficaz de regular o volume num circuito simétrico (balanceado).

Hansen, que fundou a Avalon e trabalhou com Jeff Rowland (o guru do modo diferencial), só utiliza circuitos integralmente balanceados da entrada à saída. Até as entradas RCA são na sua origem balanceadas!...

Hansen é inimigo declarado da realimentação negativa, mesmo sabendo que isso pode afectar algumas medidas de laboratório ao nível da distorção e da impedância de saída. Sendo músico, Hansen é partidário do detalhe natural (sem anabolisantes).

Com “feedback” é possível obter mais detalhe aparente, mas não é tão musical, defende Hansen. É uma falsa solução. Negative feedback is the dark side of the force, diz, porque tenta corrigir o problema não antes mas depois de ele acontecer. Ou na curiosa caricatura de Matti Otala: é como um cão a correr atrás da própria cauda...

A Ayre busca a harmonia musical das válvulas e o poder articulado dos transístores. Para isso opta pela simplicidade dos circuitos, com o mínimo de componentes no caminho do sinal.

O circuito hexagonal, ou em forma de diamante (diamond circuit), é o ex-libris da Ayre.

Tal como outras opções técnicas já referidas, esta também não é uma criação de Charles Hansen. O diamond circuit foi concebido por Richard Baker, do MIT, em 1964 (it has stood the test of time, portanto).

Embora possa ser montado em cascata (a Ayre utiliza 3 andares em série), é de uma simplicidade desarmante. Utiliza apenas 4 transístores bipolares ( 2 x PNP + 2 x NPN) ligados entre si de tal forma (dispenso-me de uma descrição detalhada para não maçar o leitor) que elimina todas as desvantagens – e mantém todas as vantagens – dos circuitos push-pull convencionais e de classe A pura, respectivamente: a distorção no ponto de transição entre meios ciclos; e a reduzida eficácia e excessiva dissipação de calor, embora, em abono da verdade vos diga: o AX 5 aquece bastante mesmo polarizado em Classe A/B.

Felizmente, já vinha configurado e “queimado”, pois o Ayre AX5 não actuou durante muito tempo cá em casa. Foi logo requisitado pela Ajasom (há sempre um cliente que espera por ele...) a meio do meu processo de enamoramento. Não que fosse preciso muito para eu perceber o que tinha ali.

Para já a construção: sólida e precisa com laivos de esoterismo. Hansen acredita na golden ratio, a sequência que Fibonacci descobriu na natureza e que já era conhecida dos antigos egípcios e - a avaliar pelos múltiplos exemplos na fauna e na flora - de Deus.

Essa filosofia está patente também no som: precisão e musicalidade. Não tem a eufonia e o talhe doce das válvulas, nem o recorte fino dos transístores. Vai beber em ambas as tecnologias os elementos que interessam na audição de música: fluidez dinâmica, coesão tonal e integridade tímbrica. O amplificador com mais afinidade sonora com o Ayre AX 5 que conheço é o DartZeel CTH 8550. Nota: não é por acaso que também utiliza uma variante do “diamond circuit”.

Tal como o DartZeel, o Ayre AX5 permite-nos olhar para o processo musical sob múltiplos prismas: o da geometria, no campo específico da trigonometria esférica, que permite determinar a posição exacta dos sons no espaço; o da física quântica, no âmbito mais lato de espiritualidade, englobado no conceito de consciência da realidade, do indiano Amit Goswami; e, finalmente, o da química, no sentido em que provoca dependência acústica: é quando ele parte que mais sentimos a sua falta.

Não deixe que o clic-clac idiossincrático do controlo de volume o desmotive, e coloque o Ayre AX5 à cabeça da sua lista prioritária de amplificadores integrados até 10 mil euros.

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