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Louis Desjardins dirige o ensemble Kronos Sparta no Ritz

Já tinha trocado umas palavras com Louis Desjardins por ocasião do Audioshow 2013. Louis voltou e, desta vez, trouxe a esposa e a filha. Lisboa é uma cidade linda, olhe elas têm andado por aí a fotografar tudo, comentou.

É pena é estar a chover, desculpei-me.

Ora, isto não é nada para nós, em Toronto está a nevar e faz um frio de rachar. Nós somos francófonos católicos, e a nossa cultura tem muito em comum com a vossa. A arquitectura e a ambiência de Lisboa é maravilhosa.

Sabia que este Sparta é o primeiro a ser construído e o primeiro a ser vendido no mundo?

Grande honra para os audiófilos portugueses amantes do vinil, elogiei. Quem será o feliz contemplado?

E que tal lhe soa o Sparta, em relação ao Kronos, que ouviu no Pestana Palace?

A minha primeira sensação, puramente subjectiva, é a de que o Kronos tem um patamar de silêncio ainda mais baixo: o negro é mais negro, como nos televisores de alto contraste. De resto, a dinâmica e a estabilidade são muito semelhantes. Claro que o sistema é totalmente diferente, a sala e as condições de audição jogam a favor do Sparta. E o preço também.

E embora o design seja menos elaborado, assim como a construção, vejo-o mais como uma peça de arte moderna e menos como um instrumento científico. Talvez porque a monitorização da velocidade seja mais discreta e dispensa os leds numéricos.

Faz-se por meio de um stroboled integrado na fonte de alimentação, montada atrás. Só precisa de ser afinado de seis em seis meses. E agora só tem um motor para os dois pratos em contrarotação.

Quer ouvir a diferença no som que faz o prato inferior? Vou retirar a cinta e deixar a rodar apenas o prato superior. Vamos ouvir um excerto de uma faixa de música clássica. Agora com os dois pratos. O que é que acha?

A diferença era tão óbvia que eu me pergunto porque ninguém tinha pensado nisto antes. Na extensão da resposta, sobretudo no grave, e no contraste dinâmico. Na cor e textura também. E na ausência de compressão. O som é mais expansivo, assim como o palco, cujas linhas de demarcação são mais “visíveis”.

Pois é, riu-se Louis. E só registei a patente nos EUA.

E na China?

Na China, não. Seria igual ao litro, de qualquer maneira, porque eles copiavam na mesma. Cópias de má qualidade, claro, que só enganam os tolos. E na Europa, nenhuma empresa séria se arriscaria a copiar. Primeiro, porque não podiam vender nos EUA. E depois, qual seria a desculpa? Ficavam mal vistos no mercado europeu também. Não estou preocupado. Eu faço o meu trabalho. E fico feliz por ter clientes que gostam e compram Kronos originais. E um distribuidor que sabe o que é um bom gira-discos. I like these guys, a lot! They know what they are doing...

O highend é o último reduto da criatividade num mundo onde tudo é cada vez mais igual e nivelado por baixo.

Olhe, na China, actualmente, são imbatíveis é a copiar as antigas válvulas Mullard e Telefunken. Nunca soaram tão bem. Por comparação, as originais soam nasaladas, imagine.

E entrámos ambos noutro reino tématico: as válvulas.

Não está a falar das Golden Dragon, pois não?

Não, é algo de novo e transcendente, fabricado por equipas especiais de trabalhadores chineses altamente qualificados. Cada válvula pode custar 100 dólares!

É que eu substitui as válvulas chinesas 12AX7 e 12AT7 de origem do meu velhinho McIntosh C2200 por raras ECC801S da Telefunken (produção especial alemã) e 12AX7S da Radiotecnique (francesas), cortesia do meu amigo José Martins. What a difference!...

São essas Mullard/Telefunken (versão chinesa ultrahighend) a que me refiro. Soam ainda melhor que as originais. You should try some day... (Louis disse-me a marca, mas eu não me lembro qual).

Os McIntosh 275 Anniversary pareciam estar a ouvir a nossa conversa enquanto nós os ouvíamos a eles. Meteram-se em brios, puxaram pelas Vivid Giya e o som estava cada vez melhor, enchendo a sala e envolvendo os presentes num amplexo musical.

O nosso cérebro é um filtro digital maravilhoso. Uma hora depois de eu ter chegado já tinha escrutinado os parâmetros da reverberação da sala e as colorações do sistema a eliminar. Ficava a música, apenas a música. O piano de Keith Jarret soava poderoso e dinâmico, ora lírico ora romântico, clássico ou moderno, erudito ou progressista. O som estava alto e não incomodava nem perturbava minimamente o diálogo.

A minha irmã era pianista (eu toco violino). Cresci a ouvir um piano seis horas por dia em casa. Faz parte do meu ADN. E este conhecimento intrínseco ajudou-me imenso a afinar o Kronos.

Da música, passámos para os músicos.

Keith é um génio com mau feitio. E rimo-nos os dois. Um dia estava num concerto, e passados 45 minutos levantou-se e foi-se embora, praguejando que o piano não prestava! Ficámos todos a olhar uns para os outros, pensando que ele voltava. Não voltou...

Fez o mesmo em Portugal. Ameaçou ir-se embora por causa já não me lembro bem de quê. E não é que foi mesmo!...

Ouve-se um grito de autoincitamento de Keith no disco que estava a tocar. E o proverbial humming  autoacompanhamento rítmico do pianista. Do Keith, não do sistema.

Pois, com o Oscar Petersen era o mumbling. E o Glenn Gold também se acompanha a si próprio. Grandes pianistas todos. Aos grandes perdoa-se tudo!

Um dia fui ouvir o Bill Evans já em fim de carreira. Estariam 20 pessoas na sala. E ele já muito débil e andrajoso. Parecia um pedinte. Tinha por ele uma adoração enorme e fiquei chocado.

Life is a bitch! Olhe, por cá, há músicos que acham que temos o dever de os subsidiar até morrerem...

O círculo fechou-se e voltámos ao Sparta.

O Sparta é muito mais fácil de construir. O chassis é feito de uma única peça, que pode ser cortada por uma máquina. Tem um pouco mais de ressonância mas não afecta o desempenho por aí além. Eu diria que tem 90% da qualidade de som do Kronos. E não é só espartano no nome e na economia. Tem uma filosofia de produção rigorosa de base militar. Na fábrica há um grupo de “operações especiais” dedicado exclusivamente ao Sparta. São todos numerados e personalizados com uma chapa, e cada “soldado” responsabiliza-se pelo seu gira-discos. E o comprador tem direito a uma cópia dessa chapa de identificação com a respectiva corrente para guardar ou pôr ao pescoço, tipo “marine”.

Outra novidade é o braço de carbono Helena. Feito à mão, camada a camada. Ele só faz um por semana. São todos diferentes, porque não são feitos por uma máquina, mas mesmo assim cumprem rigorosamente as especificações de desempenho acústico. É uma obra prima, feita com paixão e engenho!

Fiquei por lá na Sala Camões mais de duas horas: a conversar, a ouvir música. Mais tempo ficaria "se não fosse para tão grande amor tão curta a vida".

E a filmar e fotografar, claro. Para vos poder transmitir a minha experiência. Porque o melhor é experimentá-lo, "mas julgue-o quem não pode experimentá-lo...".

Para mais informações: AJASOM

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